Projeto Kzulo em Agua Bonita

Campo Grande é uma cidade que se caracteriza pela diversidade de culturas e povos. Essa condição de primeira capital a partir da fronteira, faz dela um centro de encontro de várias populações externas e transitórias de dentro e fora do brasil. Dentro dessa diversidade se encontra, entre outros, a diversidade afro (cultura afro-brasileira), religiosa (diversidade de cultos, como espiritismo, umbanda, candomblé, católico, evangélico etc), gênero (LGBTI+), indígenas, econômicas (faixas de renda) e forasteiras (estrangeiros e migrantes de países como Bolívia, Paraguai, Venezuela) que integram o conjunto da cidade. Nesse contexto, o projeto visa trabalhar com essa demanda populacional em condição de risco para recopilar, mostrar e evidenciar algumas características socioculturais, visando a (re) construção coletiva da identidade e da memória.

 

Dentro desse leque de comunidades, duas são inspiração para as líricas e narrativas contadas nas músicas autorais do Projeto Kzulo. Essas músicas autorais evocam a condução do indígena e da mulher da periferia na sociedade contemporânea. Esses dois grupos de sujeitos sociais estão em evidente condução de risco diante ameaças persistentes de alcoolismo, violência, drogas, falta de incentivo para a exploração de seus próprios talentos. No entanto, o potencial dessa juventude habitante de Campo Grande permanece latente e pronto para aflorar na medida em que lhe são brindados espaços e meios. Desta forma, acreditamos que integrar esses jovens em situação de risco através de um processo de estudo de formação artística e produção de material audiovisual, pode ser um bom caminho para contribuir no melhor desenrolar dos hábitos dessa juventude. A interação proposta acontecerá entre os jovens indígenas de Campo Grande, prevendo o Memorial da Cultura Indígena na Aldeia Marçal de Souza como centro irradiador desse segmento social, e das jovens mulheres do bairro Moreninhas, junto com o Projeto Kzulo, o grupo de Teatro Prisma e a Faculdade de Educação da UFMS.

Esta aproximação cultural se justifica da seguinte forma: (1) consideramos que não há suporte consistente para a formação artística nas comunidades em risco que coloque como fundamentação a construção coletiva da identidade e memória dos próprios atores sociais envolvidos, (2) que falta a integração de diversas entidades e agentes sociais (município, artistas, universidades, coletivos etc) na construção de pedagogias formativas em comunidades em risco, (3) consideramos que existe insuficiência de material audiovisual e científico em Campo Grande que integre às próprias comunidades, realizando registro de construção coletiva da identidade e memória que apresente-as na sua própria realidade, utilizando clipes musicais. (4) Existe insuficiência no trabalho e integração das minorias populacionais em clipes de artistas locais e nos documentários produzidos na cidade, devido à falta de conceitos abrangentes que evidenciem positivamente essas comunidades e (5) consideramos também uma falta de recursos audiovisuais de qualidade (técnica e científica) nos meios de comunicação digitais e da internet que junte as experiências culturais dessas comunidades.

De acordo ao diálogo com as comunidades envolvidas nesta proposta, são prioridades de formação artística e cultural aulas de instrumento, música e composição, ritmos e canto, teatro, arte visual, pintura mural, graffiti, dança e mídia digital. Essas formações artísticas serão o mecanismo integrador e meio de empoderamento da juventude.

Em posição como coletivo artístico, ponderamos que as representações musicais e visuais podem contribuir à discussão e (re) construção da identidade dos jovens e suas comunidades, enquanto resgatamos a memória e produzimos seu registro para a posteridade, caminhando para uma sociedade mais equitativa, contribuindo para evidenciar as populações e suas culturas. Ao mesmo tempo, essas representações contribuem para evidenciar a conservação da história e da população cultural, no caso específico dos jovens indígenas de Campo Grande, tendo o Memorial da Cultura Indígena Marçal de Souza como centro irradiador desse segmento social, e das jovens mulheres do bairro Moreninhas. Com este projeto, queremos mostrar a Campo Grande como cidade integradora dessas dinâmicas, que complementam o espíritu da cidade, interessada na identidade, memória e a história de seus habitantes.